Cartel da Cevada - Elas por Elas
idéias perdidas em algum canto...
se não rolar aqui, esse é o link:
http://www.youtube.com/watch?v=8kagUXVOU_Y
Pra conferir o teaser do curta que sai em breve
http://www.youtube.com/watch?v=5SlfN6Srhv8
Fugindo um pouco dos textos e dando espaço para as imagens...
http://www.youtube.com/watch?v=glEKdXQbwWI
I.
A poça transbordou. A água escorreu pelo leve desnível do lado esquerdo. O pequeno canal que se formou desaguou no meu pé esquerdo. O primeiro evento extraordinário em tempos. Não. Minto. O primeiro evento extraordinário foram as treze gotas a mais. Mil trezentos e oitenta e cinco gotas. Deve estar chovendo lá fora. Aqui chove todos os dias. Todos os dias exatamente mil trezentos e setenta e duas gotas sobre a minha poça. Se a poça fosse mais profunda daria um jeito de conseguir um peixe. Realmente extraordinário. Treze gotas a mais. Deve star chovendo lá fora. Aqui chove todos os dias. Mil trezentos e setenta e duas gotas.
II.
Se um dia me pedirem posso construir um canto igual a esse. Tempos olhando para esse canto. Sei como cada pedra é encaixada na outra. Poderia montar e desmontar o canto. Abrir e fechar a parede. Já fiz isso diversas vezes. Mas só na minha cabeça. Se um dia me pedirem posso construir um igual. Se um dia me pedirem. Senão só na minha cabeça.
III.
Meu céu não tem estrelas. Não tem nuvens. Sol ou lua. Dia ou noite. Apenas intervalos. Quando fecho os olhos e quando os abro novamente. O mesmo céu. Sem estrelas.
IV.
Hoje elas não apareceram. Agnes e Agatha. Não é a primeira vez que elas não aparecem. Mas confesso que me sinto mais só quando elas não vem. Confesso que fico esperando. Mesmo sabendo que as vezes elas não vão aparecer. Como hoje. A primeira vez que apareceram não nos entendemos. As via como invasoras. Até pensei em matá-las. Mas não. Deixei-as ficar e deixei-as ir embora. E elas voltaram. E voltaram. E a situação foi se amenizando. Começamos a nos entender. Hoje elas são minhas únicas companhias reais além do musgo nas paredes. Mas hoje não vieram. O dia foi mais longo. Agnes e Agatha. Não sei porque as chamei assim. Nomes femininos. Não sei distinguir o sexo das aranhas.
V.
Tentava manter a conta do tempo. Seguir o andar de dias e noites. Meses. Talvez anos. Mas é difícil quando se tem q fazer isso contando as horas mentalmente. Ou procurando resquícios de luz por alguma fresta. Agora eu determino o que é dia e o que é noite. Aleatoriamente.
VI.
Campos verdes. Uma brisa fresca sopra. Os pelos do meu corpo se arrepiam. Piso de pés descalços na grama macia e úmida. O sol é quente e seus raios penetram as nuvens cinzas que a pouco cessaram de chover. Ainda tenho a pele úmida. Respiro fundo. E o cheiro é podre. Mofo. É assim que acordo. É assim que me são roubados os campos verdes. O lugar para onde fujo quando fecho os olhos. Quando quase durmo. Perdido entre dias sem sol e noites sem lua. Voltado para o canto. Até a minha poça fede. E os pingos caem. Fecho os olhos. Mas os campos não voltam.
VII.
O tédio consome até meus pensamentos. Parados. Estáticos. Imóveis. Até meus pensamentos são cansados. Disseram uma vez que somos sempre livres nos pensamentos. Grande bobagem. Até minhas idéias são encarceradas. Presas. Limitadas pelas paredes de uma mente suprimida. Será dia lá fora? Ou até o tempo foi consumido pelo meu tédio? O um tempo foi.
VIII.
A necessidade desesperada do outro. Nunca pensei que fosse sentir de maneira tão intensa. Mas não há outro. Apenas outras paredes. Sempre as mesmas paredes. Intimas. Elas que devolvem o eco de minhas palavras suprindo-me um pouco dessa ânsia. Elas que me colocam frente a frente com minha própria repetição. Meu outro sou eu.
IX.
Hoje é meu aniversário. Assim como o foi ontem. E como o será daqui a uma semana. Ou daqui a uma semana. Os anos passam mais rápido assim. Tenho aqui minha própria órbita em torno de um sol único (imaginário). Posso acelerar ou retardar o tempo. E não é esse um grande poder. Grande poder. De nada adianta. Lá fora tudo continua como sempre foi. E aqui tudo continuará como sempre é. Pois tudo é sempre igual. Não importa se amanhã decido comemorar mais um ano em um dia. Grande poder. Se pudesse apenas acelerar o tempo em direção ao fim. Ou retrocede-lo até o começo de tudo. Não. Acelerando ou retrocedendo vivo em um permanente Agora. Sempre igual. Nem minhas ilusões me bastam mais. Esmagadas pela perene realidade desse Agora que insiste em ficar.
I.
NA SALA. Sentados um de frente para o outro.
ELA: Ainda ouço. Ele continua falando. Até quando continuarei ouvindo? Até quando ele continuará falando?
ELE: Ela ainda escuta. Será que presta atenção? Será que o que falo ainda faz algum sentido? Para ela? Para mim?
ELA: Ele sempre falou mais que eu. Mas será que algum dia me disse alguma coisa? Ou será que meus silêncios foram mais expressivos?
ELE: Se eu calar, o que restará? Apenas seus silêncios. O peso do silêncio. Muito maior que o de minhas palavras.
ELA: Nunca soube como dizer. O que falar. Sempre escutei. A voz dele. As palavras dele. E só. Os únicos sons que vem dele. Se ele calar, o que restará?
A chaleira chia na cozinha.
II.
NA COZINHA. Ela em pé, com a chaleira na mão, prepara o café. Ele sentado à mesa.
ELE: Nunca falou muito. Tudo fala por ela. E esses são seus sons. O chiar da chaleira no fogo. A água caindo sobre o pó. Sua respiração, tranqüila. Será que ela também me escuta assim? O beijo, os lábios úmidos e quentes. A pele que se arrepia ao toque.
ELA: Meu olhar fala. Meu corpo expressa. Será que ele ainda entende? Seu olhar alguma vez compreendeu o meu? E seu corpo? Alguma vez ouviu? Quando me toca, eu grito. E ele silencia.
III.
NO QUARTO. Ambos na cama.
ELA: Será que sempre nos entenderemos assim? Longe de todos os outros. Longe de tudo. Perdidos em nós mesmos. Será?
ELE: Agora é o momento em que silencio. Em que me abandono em sua polifonia. É o momento em que escuto, só, à sinfonia dela. É quando, penso, realmente entendemos um ao outro.
IV.
NA BANHEIRA. Ambos dentro d´água, de costas um para o outro.
ELE: Quando criança mergulhava a cabeça na água e gritava. Minha voz distorcida. Dizia muitas coisas. Frases enormes. Mas o que escutava eram coisas completamente diversas do que dizia. E ela? Escuta o que digo, ou o som que se propaga distorcido na água?
ELA: Quando criança mergulhava a cabeça na água. Segurava a respiração para não soltar nem uma bolhinha. O silêncio me deixava a sós comigo mesma. Às vezes é assim que me sinto. Submersa no silêncio, prendendo a respiração. Mas ele está ao meu lado.
V.
NA SALA DE JANTAR, á mesa. Eles comem.
ELA: Como por necessidade. Mas as refeições se tornam um hábito. Amo por necessidade. Será que um dia o farei por hábito?
ELE: Não gosto de ervilhas. Desde pequeno nunca gostei. Sempre me disseram que faziam bem para a saúde. Então comia. Quieto. Sempre dei muita importância ao que os outros me diziam. Será que os outros dão tal valor ao que digo?
ELA: Hábito. “Olá”. “Como vai?” “Tudo bem com você?” Falas decoradas e automáticas. O pouco que falo também falo por hábito. O muito que digo nem todos escutam. Para ele chega a ser mais que um hábito. Falar é um vício.
ELE: Tento calar. Mas o silêncio me desmancha. Deixa marcas como gotas corrosivas. No silêncio estou só. Abandonado até por mim mesmo. E a solidão me destrói.
VI.
NA CAMA. Deitados lado a lado.
ELA: Enfim estamos sós. Estou só.
ELE: Odeio ficar só. Sozinho, olhando para o teto. Para o vazio. Para o nada. Estou só.
ELA: Estou só. Estou bem. Por que fazemos tanta questão de estarmos com alguém?
ELE: Só. Não consigo. Preciso estar com alguém. Por que isso?
ELA: Sempre cercados de outros, de outras, de muitos. Sempre acompanhados. Por que, se somos sós?
ELE: Por que ficamos sós se podemos estar sempre cercados, ocupados, atarefados?
ELA: Nesta hora estou só. Agora. E penso o porquê?
ELE: Porque precisamos de ecos. É tudo o que queremos.
ELA: Ecos. Ecos de nós mesmos.
- Você é feliz?
A pergunta soava descabida. A chuva caia forte e fria. Fria. Assim como o cano da arma que lhe pressionava a nuca. Era incomoda aquela pressão. Porém mais incomoda era a chuva. A roupa estava colada em seu corpo. Com certeza ficaria gripado. Gripado? Provavelmente nunca ficaria gripado novamente.
* * *
Após desligar o telefone fora para o banho. Ela havia concordado em vê-lo mais uma vez. Talvez voltassem a se entender. Talvez não. A discussão tinha sido séria. Não queria vê-lo nunca mais. Nem pintado de ouro. Mesmo assim resolveu ligar. No fundo não podia viver sem ela. Estava decidido a acertar as coisas. Começar novamente. Ao menos tentar.
Tomou um longo banho. A água, então, era quente. Agradável. Lavava-se para vê-la. Limpo de seus pecados. Vestiu-se com uma roupa elegante mas casual. Sabia que ela gostava daquela blusa. Ela tinha lhe dado em um aniversário. Sentia-se bonito. Confiante. Hoje iria compensar seus erros. Estava ansioso também. Ela parecia disposta a conversar. Mas qual seria sua reação? Ele permanecia com a dúvida.
Entrou no carro. Não ligou o rádio. Talvez até o tivesse ligado. Contudo, a ansiedade não o permitia. Saiu da garagem e tomou seu rumo. O rumo da felicidade? Era o que ele esperava. O sinal ficou vermelho. Ele parou. Seus pensamentos foram subitamente interrompidos. Uma nova sensação o dominou. Dor. Havia sido atingido na cabeça. Um pouco acima do olho esquerdo. Com muita força.
Por entre o olho inchado e o sangue viu a mão que o empurrava para o lado. O homem entrou no carro e partiu. Ela já o avisara para andar com a janela fechada. Não a escutara. Levantou a cabeça. Mais uma vez foi golpeado. Porém com mais força. Apagou. Ficou perdido em memórias e devaneios.
Acordou. Começara a chover. Água e sangue escorriam para sua boca. Estava deitado no chão. Não sabia onde. Sentia um peso sobre suas costas que o impediam de se mover. Sentia também uma pressão fria em sua nuca. O homem estava sobre ele com uma arma.
- Responde! Você é feliz?
Se era feliz? A pergunta era mesmo descabida.
Não respondeu. Ficou em silêncio. Qual seria a medida da felicidade? Será que se arrependeria de algo? Será que era feliz? Seria feliz? Um estouro. A nuca esquentou repentinamente. E ele não sentiu mais nada.
* * *
Ela esperou-o por uma hora. Por uma hora ficou sentada à janela. Observava a chuva que começara a cair. Pensava no que diria a ele. Uma hora. Ela levantou-se e foi embora. Teria sido feliz com ele? Não sabia. Jamais saberia.
Ela não concordaria. Nunca. A conhecia melhor que ela mesma. Já tentara antes, mas as palavras sempre faltaram. Então ficava observando-a. Somente olhando para aquela que queria. Olhando porém disfarçando do olhar alheio o que lhe ia por dentro. Pensava se algum dia teria coragem. Pensava para que era necessário coragem se tantas vezes já vislumbrara aquela cena. Pensara que tinha medo. Medo do que? Medo de um não, medo da não retribuição, medo de perder o pouco que tinha a seu lado por querer mais.
Queria ter coragem. Apostar em que daria certo? Não. Deixar-se levar, não sem medo, mas sem esperanças ou expectativas. Simplesmente entregar-se. Abdicar da certeza comodista da hesitação e lançar-se para o terreno da incerteza. Querer mais, além do pouco que tinha? Mais do que isso. Querer apenas que ela soubesse. Nada mais.
Estava resoluto. Seria assim. Atiraria aos ventos a estabilidade da distância. Observava-a sob uma nova determinação. Levantaria. Aproximaria-se dela. O sangue correndo mais rápido. Um leve tremor nas mãos. Um pouco de suor. A respiração pesada. Ela vê que se aproxima. Olha-o nos olhos e sorri, como de costume. Ele desvia timidamente o olhar do dela. O abraço amigo. O beijo carinhoso no rosto. O cheiro do perfume. O toque da pele macia. Os lábios. Os lábios. Aquele sorriso permanente. Redentor. Ele abre a boca. Quer falar. Seus lábios hesitantes.
- O que foi? – pergunta a voz melodiosa, sedosa.
O que foi? Sua resolução subitamente abalada. A vontade fragmentada por um sorriso. E o medo, velho companheiro, apontava de leve. O que foi? Será que ela corresponderia? O sorriso que tanto amava permaneceria? Ela ainda o olharia nos olhos?
- Fala...
Falaria. O resquício de determinação ainda restava. Não sucumbira. E se ela dissesse que não? Falaria a verdade. E se ele tivesse entendido tudo errado? Não importa. Tinha que falar. E se...?
- Eu...eu estava com saudades...
Um sorriso. Um toque carinhoso no rosto. Era a verdade. Cada minuto longe dela representava longos períodos. Tinha saudade. Só se tem saudade de quem se ama. Um dia ela entenderia. Não estava preparado para ser privado daquele sorriso. Mesmo que isso fosse uma incerteza. Não estava preparado. Amava-a a cada olhar. A cada sorriso. Próximo mas a distância. Um dia ela entenderia.